"Por que eu iria a uma igreja?
Eu já me sinto terrível o suficiente.
Eles vão fazer que eu me sinta ainda pior."
Esta frase está no início do livro ''Maravilhosa Graça'', de Philip Yancey. Trata-se de uma prostituta que passava por sérias dificuldades, que, ao ser questionada sobre o porquê de não ter procurado uma igreja a fim de receber auxílio, expressou com sinceridade o que sentia em relação a essa possibilidade.
Antes de qualquer coisa deixe-me aqui esclerecer alguns pontos:
1) este texto não será carregado de ódio ou rancor; não será uma carta de acusação a igreja nem um dossiê que denigra sua imagem e importância, mas apenas uma reflexão sobre determinados fatos tendo como base a minha experiência direta com a instituição;
2) não tenho a pretenção de que o que eu escrever a seguir seja uma espécie de fonte de autoridade para que qualquer pessoa aponte seu dedo e agrida aqueles que comungam da fé cristã - espero realmente que os que lerem consigam separar quando falarei de instituição e quando falarei de pessoas;
3) ao refletir sobre minha relação com a instituição não estou abortando minha relação com o Seu verdadeiro dono - que fique bem claro isso;
Nasci num lar cristão. Meu pai já era pastor quando vim ao mundo. Cresci aprendendo com meus pais a ter uma relação de amor a Deus, uma relação sincera, construida com muito esforço e sem apadrinhamento - por que filho de crente, crentinho não é! Desde cedo frequentei a escola bíblica dominical e adquiri o gosto por estudar a bíblia, por investigá-la e encontrar individualmente suas verdades e princípios. Ingressei no seminário a fim de me tornar bacharel em Teologia, após um ano e meio tranquei o curso e ingressei na Universidade. Deixei esta primeira graduação no quarto período, mudei de cidade e comecei a cursar Letras, curso que sempre quis fazer. Hoje tenho 26 anos, moro em Natal-RN, trabalho, estudo, namoro, saio com meus amigos nas minhas folgas, visito a igreja, vou ao parque, frequento livrarias, supermercados, leio livros, assisto séries, navego na internet, escrevo poemas, contos e crônicas, enfim, um ser humano normal.
Na minha adolescência, passei a me envolver com os ministérios da igreja. Primeiro, no louvor, como baterista, uma vez que já dominava o instrumento desde pequeno. Pouco tempo depois, assumi o microfone e liderança do ministério de louvor da juventude. Neste passo, integrava a equipe de liderança, e em seguida, fui eleito líder de jovens - cargo que ocupei por mais de 5 anos; fiz curso de teatro fora da igreja e trouxe essa experiência para o ministério de artes, onde também passei um período a frente; como possuia domínio do estudo bíblico, da hermeneutica e homilética, também fui professor na Escola Bíblica Dominical. Isso tudo sem falar no ministério de ser Filho de Pastor, esse em tempo integral (hahahah). Ou seja, toda essa vivência me deu embasamento para conhecer todo o sistema eclesiástico e falar dele com propriedade.
A sensação de pertencimento a um grupo, muitas vezes cega parcialmente a nossa visão sobre nossas práticas, sobre nosso modo de ver o grupo e sua capacidade de ação. O que geralmente acontece com os cristãos é que o ativismo religioso, a tradição (sim! Acusamos os católicos, mas somos tão tradicionais quanto), o legalismo, a institucionalização da igreja, o despreparo dos líderes, o autoritarismo de alguns patores, a centralização do poder, o engessamento dos meios da Graça, etc faz com que milhares percam o foco descoberto no momento da conversão.
Assim, como eu, acredito que muitos tem uma opinião igual (ou até mais acirrada) sobre os males que cercam o corpo de Cristo. E cabe aqui, separar bem o que é instituição do que é Corpo de Cristo. Aprendi na Bíblia que a Igreja é um organismo vivo, pulsante, em constante espansão, diretamente ligada a Videira; aprendi com a religião que a igreja é uma organização fechada, julgadora, legalista, um sistema que visa o êxito de seus gerentes, managers, também conhecidos como pastores [sic], bispos, apostólos, semi-deuses, ou qualquer título que faça o cara se sentir superior a maioria.
Vejo que o grande desafio dos cristãos hoje em dia continua a ser a propagação do verdadeiro Evangelho de Cristo, com o agravante de um esforço maior para enfrentar e ofuscar o pseudo evangelho travestido de religião, de gospel, de movimento.
É sabido que sempre existem mais pontos a se criticar do que exaltar qualquer que seja o objeto, assim como é sempre mais fácil não crer do que pagar o preço de erguer a bandeira da fé em um mundo relativista como o de hoje.
Eu decidi sair da igreja por que não aguentava mais o sistema, o peso da tradição ou da posição que eu ocupava. Quando eu disse sim ao chamado que Deus tem pra mim, refleti sobre tudo, sobre os prós e os contras, pesei-os numa balança, mas o irresistível chamado foi muito mais forte e eu aceitei. Contudo, depois de um tempo a força diminuiu, não se acabou e eu precisei de um tempo distante. Usando uma metafóra bíblica, precisei de um deserto e ainda estou nele tentando reavaliar tudo o que passei, tudo que vivi, aprendi.
Há diversos motivos pelos quais uma pessoa se afasta da igreja, assim como há milhares de motivos pelos quais ela volta. Em parte, o que aconteceu comigo foi a falta de diligência própria, baixei a guarda por alguns instantes e o ativismo me envolveu, o legalismo apareceu em algumas de minhas pregações, o dedo apontado para o pecador se fez presente em algumas aulas ao ínves da mão estendida; em algum momento eu cedi a superficialidade de realizar a obra do Senhor a profundidade de conhecer o Senhor da Obra.
Continua...